Resenhoteca – opinião cultural

Archive for julho 2009

Já que estamos de férias vou postar aqui uma resenha escrita ano passado (2ºJOs não copiar!!!!) na matéria do querido prof Fuser.

Uma bela lição de jornalismo

As reportagens do jornalista Zuenir Ventura sobre o assassinato do seringueiro Chico Mendes foram publicadas no livro Chico Mendes – Crime e Castigo. Dividido em três partes de acordo com as suas viagens ao Acre: o crime, a primeira viagem em março de 1989 após a morte (dezembro/1988), o castigo, dois anos depois, e quinze anos depois, para ver como estava a cidade de Xapuri, onde morava o seringueiro, um tempo depois do assassinato do grande líder seringalista.
Para um jornal cobrir um fato que já havia acontecido, só mandando seu melhor jornalista. E nisso acertou o Jornal do Brasil mandando Zuenir Ventura, que também apesar dos mais de trinta anos de carreira aceitou com a maior humildade e encarou como se fosse um principiante, mas é claro que não era. Com uma apuração impecável, Ventura procurou “mostrar todos os lados de uma história que, no fundo, tinha um lado só”, como disse Marcos Sá Corrêa no posfácio do livro.
A isenção não está presente como deveria estar no jornalismo, mas onde há isenção no jornalismo? Aprendemos durante quatro anos que temos que ser isentos, imparciais, mas são coisas que praticamente não vemos no jornalismo de ultimamente. E, como não tomar partido num caso desses em que não é tão claro quem foi o assassino, mas o motivo de sua morte é óbvio. Entretanto, Ventura mergulhou tão profundamente em suas entrevistas e apurações que não como se emocionar com alguns personagens. E a emoção foi tanta que o jornalista “adotou” o menino Genésio, a grande testemunha do caso, só não sei se foi por afeição ou por proteção. Gosto de acreditar que foi pelos dois.
Além de uma lição de jornalismo, o autor se aproxima do leitor tanto no formato da escrita, que é próxima sem ser informal, como em seu conteúdo. Junto com as reportagens estão alguns relatos do cotidiano de Ventura, como quando estava no meio do mato e contou: “Com fobia doentia de cobra, a ponto de não poder vê-las nem em foto, procuro controlar meu pânico enquanto vou ouvindo as lições de Nilson, que pareciam todas voltadas a mim.”
A descrição também é de se invejar. Ventura consegue situar tão bem o leitor que quase ouço os zunidos dos milhares de mosquitos acreanos. Sinceramente, quando lia algo sobre mosquitos tive uma certa aflição, porque assim como o autor tenho certa repugnância, além de alergias. Levando-nos ao exato local e período em que esteve em Xapuri, Acre, imaginamos os personagens apenas pelas palavras – “A sua magreza lembrava um galho seco a que se tivesse enrolado uma folha de pelo curtida pelo sol que mal cobria o esqueleto. (…) Era uma lagartixa ereta, se esse bicho não fosse inofensivo.” ao descrever o velho Darly Alves no presídio de Rio Branco. Ao vê-los em filmes, na televisão, em fotos descobrimos que o que foi lido não poderia ser melhor descrito.
Após a leitura, até dá uma vontade de ir ao Acre ver como estão todas as reservas extrativistas, o Projeto Seringueiro de Chico Mendes, o Comitê Chico Mendes, ver o que foi feito vinte anos depois da morte do grande líder dos seringueiros. Mas parece que no Brasil não foi feito muito. Em fevereiro do próximo ano fará quatro anos do assassinato da missionária Dorothy Stang, que morreu com um ideal parecido com o de Chico Mendes. O livro nos dá uma esperança, mas os noticiários não.
Fico imaginando como seria ter lido as reportagens na época em que saíram no jornal. Algo como um saudosismo dos tempos de folhetim, quando as senhorinhas que liam as grandes literaturas que vinham aos capítulos nos jornais. Como seria emocionante ler uma reportagem a cada dia. O que vai acontecer amanhã? Mais emocionante seriam mais reportagens como essas nos jornais diários.

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