Resenhoteca – opinião cultural

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Depois de um fim de feriado marcado pelo adiantamento de trabalhos e boas noites de sono [leia-se: não ida ao JUCA], resolvi  ter um momento pós-almoço furtando um devedê da casa da vizinha culta e desfrutando com minha mãe “um dos maiores clássicos do cinema”, como diz o clichê. Assisitir Casablanca é, sem dúvida, uma experiência histórica – o retrato de uma época que fala sobre si mesma – e artística – com as sutilezas do cinema de então.

Como faço normalmente, estava digerindo o filme logo após seu fim e refleti sobre a história, os atores, os personagens e o momento. Percebi que seria difícil comentar as idéias sem dar alguns detalhes essenciais ao mistério do filme… Entonces, resolvi dar início a uma tag meio sacana, mas sincera: SPOILER A VISTA. Ou seja, nem vou me importar se você já viu o filme ou não, vou contar o fim se achar necessário, mas prometo que é por uma causa maior: minha nota de Novas Tecnologias. Então, se prepare, hehe.

Conforme explica nossa querida wikipedia, Casablanca, cidade do Marrocos, norte da África, era a penúltima parada para aqueles que desejavam se refugiar na América da guerra que ocorria na Europa. Em 1942, durante a Segunda Guerra Mundial, a cidade era uma região não-envolvida com o conflito, mas controlada pela França. É lá que Richard Blaine [Humphrey Bogart] tem o mais famoso bar da região, onde todas as transações – legais ou ilegais – para a ida para os Estados Unidos ocorriam entre um shot de conhaque e uma tragada no cigarro. Ninguém consegue decifrar o cínico e enigmático dono do Rick’s Cafe Americain, mas todos parecem confiar nele – inclusive um homem que assassinou oficiais para conseguir valiosos papéis de trânisto, confiados a Rick instantes antes do assassino ser preso.

Sabendo do valor e da importância desses papéis na região, ele os esconde, e espera a chegada das pessoas a quem eles seriam vendidos. Quando os fugitivos chegam à cidade, uma surpresa: o revolucionário Victor Laszlo [Paul Heinreid] traz a bela Ilsa Lund [Ingrid Bergman], que misteriosamente tem algo em comum com Rick… Uma história de amor do passado, interrompida com a invasão de Paris pela Alemanha nazista e pelo inexplicado abandono de Ilsa a Rick logo antes de sua partida. O broken heart explica a descrença e o cinismo dele, mas o reencontro desperta as sensações que ele desejava deixar no passado.

Com as dúvidas e incertezas que surgem, não é só Rick que fica comovido. E Ilsa, que não é boba nem nada, pede para Sam, o pianista do bar e amigo de Rick, tocar a música que ritmou os últimos momentos do casal em Paris, para relembrar e comover o amor do passado. A clássica trilha sonora tem como canção principal As Time Goes By, e merece ser admirada:

Mas como ela agora é casada [ou será que já era antes? mais spoilers a frente!] e seu marido precisa dos vistos escondidos, Rick precisa decidir se vai deixá-la ir novamente.

Após conversarem em uma noite para lembrarem de Paris, decidem pela fuga, e por entregar Laszlo para a polícia francesa. Ilsa explica que o abandonou em Paris porque já era casada com Laszlo, mas acreditava que o marido estava morto. Quando descobriu que ele ainda estava vivo, ela precisou deixar Rick para trás, e seguir o seu destino através da política. Então, durante a execução do plano que os levaria a caminho da América, Rick mostra sua verdadeira intenção: na verdade, ele havia planejado a fuga de Ilsa junto com Laszlo.

 

Num momento de plena negação de suas vontades, o egoísta Richard Blaine abre mão de seu amor pessoal e explica a Ilsa que ela deve seguir com o marido para que juntos possam mudar aquela realidade. Ela compreende que suas necessidades íntimas devem ser deixadas de lado em benefício de uma esfera coletiva, e a bela também abdica da sua paixão de Paris para poder fazer uma diferença maior no mundo. Aliás, o filme inteiro eles vivem esse conflito: Ilsa conhece Rick em Paris quando se acha abandonada por suas convicções intelectuais, e reencontra em Laszlo motivação para fazer a diferença em sua história.

Muito mais que uma história de amor, essa é a amostra de como existem pessoas que, em benefício das condições universais, são capazes de sobrepor suas expectativas individuais. E, do mais, para os momentos de nostalgia, é só lembrar, com saudosismo, que “nós sempre teremos Paris” – e Casablanca.

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Da cabeça de um apaixonado por tecnologia e estudos de astronomia, nasceu a série de livros O Guia do Mochileiro das Galáxias. Inocentemente fingindo ser mais uma obra de EXTREMA ficção científica, os livros de Douglas Adams relatam as aventuras, tropeços e desencontros espaciais do terráqueo Athur Dent, que passa a ser um viajante espacial logo depois que é salvo  da destruição do planeta Terra para a construção de uma via expressa. Mas a doideira não acaba por aí: ele é resgatado da Terra por um amigo que ele pensa ser terráqueo, mas na verdade é um disfarçado mochileiro das galáxias do planeta Betelgeuse que se apresenta como Ford Prefect. Além de alienígena, ele também é um dos milhares de editores da obra mais famosa e enorme de todos os sistemas – O Guia do Mochileiro das Galáxias, um livro que se propõe a dar todas as orientações necessárias para um aventureiro espacial [como sempre levar uma toalha para onde quer que você vá], e que tem na capa a sua dica principal: NÃO ENTRE EM PÂNICO.

Só essa micro sinopse pode causar um grande UAUMAS…? em nossas cabeças, mas não se deixe enganar pela vibe nonsense que a trilogia de cinco livros [!!!]  carrega. Ela acaba falando muito mais sobre nós mesmos e sobre todos os defeitos presentes no nosso mundo do que podemos imaginar.

Os principais alvos da crítica do cético e desconfiado Douglas Adams são a política e a burocracia. Alguns dos mais engraçados retratos são os que descrevem sociedades inteiras baseadas em papeladas inexplicáveis, em governos xenófobos e em líderes megalomaníacos. E ele apresenta todas essas críticas no ritmo em que Arthur Dent vai aprendendo mais sobre os mundos em que vive.

 

Na verdade, Arthur vai desvendando e se entendendo gradualmente, na mesma velocidade em que compreendemos as críticas e tomamos diversos ataques retóricos de Adams. Cada livro traz uma diferente leitura “espacial” sobre os nossos problemas “terrestres”. Em O Guia do Mochileiro das Galáxias, Arthur é obrigado a viver com o estranhamento natural de um estrangeiro que perdeu sua terra e precisa reaprender a se relacionar com os novos povos que conhece. Já em O Restaurante do Fim do Universo, ele é obrigado a conhecer as verdadeiras origens dos habitantes da Terra: medíocre, simples e extremamente vaidosa.

Depois de quase ficar louco, A Vida, O Universo e Tudo Mais é a aventura na qual Arthur, Ford, a terráquea Trillian e o psicótico Zaphod Beeblebrox [o presidente do Universo!] precisam salvar a galáxia dos ataques de uma civilização isolada que se torna xenófoba após descobrir não ser a única no Universo. Alguma semelhança com a realidade imperialista vivenciada no século XIX por… nós humanos? E no Até Mais, e Obrigado pelos Peixes! Arthur, novamente na Terra e a salvo [será?] encontra alguém que finalmente lhe compreende e descobre que, ao final, nem todo o Universo precisa ter um propósito certo para existir. Ele simplesmente é, e faz bem por ser assim.

Mas é claro que se a narrativa louca já é hipnotizante, os personagens são um espetáculo excepcional. Só que pouco restaria da graça da série se não houvesse um robozinho por lá, com o cérebro do tamanho de diversos planetas e um corpo pequeno e com sérios problemas de cifose – a famosa concurda. Marvin é o nome dele, e sua mais importante caracteristica é a sua desgraça: um chip de personalidade humana, que o torna no ser mais depressivo de todo o universo – e, ironicamente, o mais engraçado!

Além disso, Douglas Adams também nos fornece a resposta para A Vida, O Universo e Tudo Mais… mas de que adianta ela sem a pergunta? Para quem souber, aí fica ela: QUARENTA E DOIS.

P.S.: O filme homônimo é mais baseado no primeiro livro e é uma opção divertida para quem tem preguiça de ler todos os livros. Mas ficadica de professor de colegial: a experiência NUNCA vai ser mesma, é sempre melhor ler a obra. O que posso recomendar de melhor no filme é a cena inicial, que é uma grande piada interna para os leitores e um engraçado soco na cara de todos que assistem:

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Budapeste, filme inspirado na obra de Chico Buarque

Budapeste, filme inspirado na obra de Chico Buarque

Filmes baseados em livros sempre dão espaço para polêmica e questionamento.  O grande problema enfrentado pela maioria dos roteiros adaptados é supor que o público já leu a obra e deixar lacunas de interpretação, que só podem ser preenchidas por uma leitura prévia. Cris já havia explicado isso no post sobre Benjamin Button e também me avisou sobre esse problema ao sairmos da sala de exibição de Budapeste, na Reserva Cultural. E eu realmente senti que nem todas as histórias foram completamente explicadas, mas, ainda assim,fazendo um esforço, pude chegar a coclusão máxima de que este é o filme de um homem que busca se encontrar no mundo. Um produção portuguesa, brasileira e húngara dirigida por Walter Carvalho que convida a reflexões e dúvidas.

Mas vamos a uma breve sinopse. José Costa [o ator Leonardo Medeiros] é um ghost-writer que vive de passar para o papel histórias, discursos e textos que os autores não tem habilidade para escrever. Um de seus escritos passa a ser um grande sucesso e isso lhe causa certa indignação, já que não teria o reconhecimento desejado mesmo por ele, que não assume tal vontade. Depois deste episódio, ele deixa sua mulher e filho no Brasil e parte para a Hungria, a terra de uma língua que lhe fascina, para procurar uma nova identidade e se encontrar.

O novo Zsosé e a professora Kriska
Uma vez lá, a terra lhe acolhe de forma bela e inesperada. Em uma livraria, a húngara Kriska [a bonita Gabriella Hámori] assume o papel de guia para Costa, ao mesmo tempo em que o obriga a aprender a língua para poderem se comunicar. Com a irresístivel colocação de que “o húngaro é a única língua que o diabo respeita”, ela o transporta para um fascinante mundo novo, onde ele busca se redescobrir e encontrar um novo sentido para sua vida e sua profissão. Ele ganha um novo nome, [Kósta Zsosé],  invertido do seu nome brasileiro e frustrado, e só isso já diz mais do que devia sobre os rumos finais do filme.

O “jogo de espelhos” ao qual se referia o Guia da Folha quando descrevia o filme foi bastante preciso. José Costa, Kósta Zsosé, quem é ele realmente? A ambiguidade  de imagens e contextos é aplicada durante todo o filme, o que o faz uma grande confusão a ser desvendada. É um exercício de raciocínio, com certeza, talvez com alguns espaços a serem preenchidos… Mas com certeza um convite a leitura do livro ou a uma observação mais delicada das palavras de Chico Buarque.